Quem cuida de quem cuida? Burnout, enfermagem, NR-1 e o trabalho que ameaça o bem-estar do trabalhador

Por MP Redação

No dia em que se homenageiam os técnicos e auxiliares de enfermagem, a forma mais honesta de reconhecimento não está apenas em repetir a justa gratidão pública por esses profissionais. A gratidão é necessária, mas insuficiente. Homenagem verdadeira não se limita à estética do agradecimento, ao post institucional, à frase de calendário ou ao aplauso protocolar. Quem cuida diariamente da vida alheia precisa ser visto também em sua própria vulnerabilidade: como trabalhador submetido a jornadas extenuantes, escassez de pessoal, convivência íntima com a dor e a morte, além de uma cobrança implacável que contrasta, muitas vezes, com sua baixa autonomia diante da estrutura.

O Brasil celebra em 20 de Maio o Dia Nacional do Técnico e do Auxiliar de Enfermagem, data associada à memória de Ana Néri, pioneira da enfermagem brasileira. Segundo o Conselho Federal de Enfermagem, técnicos e auxiliares somam cerca de 1,8 milhão de profissionais e representam mais de 80% da força de trabalho da enfermagem no país. (Cofen) Não se trata, portanto, de categoria lateral, periférica ou meramente complementar. Trata-se da base cotidiana da assistência em saúde: profissionais que sustentam a continuidade do cuidado, permanecem na rotina miúda e decisiva da assistência, administram medicações, observam sinais, acolhem pacientes, comunicam famílias, respondem à urgência e transformam presença em segurança concreta.

A enfermagem não é apenas o rosto humanizado do sistema de saúde; é parte essencial de sua estrutura de funcionamento. Justamente por isso, o burnout nessa categoria exige mais do que homenagem de ocasião.

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A obra Burnout: Quando o Trabalho Ameaça o Bem-Estar do Trabalhador, organizada pela Dra. Ana Maria T. Benevides-Pereira, oferece uma chave técnica valiosa para essa discussão. A referência bibliográfica da obra registra sua publicação pela Casa do Psicólogo, em São Paulo, com 282 páginas. (Pergamum Biblioteca PUCPR). No capítulo “As atividades de enfermagem em hospital: um fator de vulnerabilidade ao burnout”, a autora não reduz o adoecimento à fragilidade individual do trabalhador. Examina a enfermagem a partir da organização do trabalho, das condições institucionais, das relações profissionais, da jornada, da carga emocional e dos fatores psicossociais que envolvem a atividade hospitalar.

Deslocado o holofote para a estrutura, a obra de Benevides-Pereira assume o protagonismo técnico deste debate, deixando para Freud o papel de alegoria retórica. Se em O Mal-Estar na Civilização Freud descreveu o preço psíquico que a vida em sociedade impõe ao sujeito — renúncia, adaptação, contenção, disciplina e tensão —, a literatura sobre burnout permite transportar essa intuição para o terreno concreto do trabalho organizado. O fundamento aqui, porém, não é psicanalítico. É ocupacional, psicológico, jurídico e institucional.

A melhor homenagem a quem cuida não é apenas agradecer. É impedir que o cuidado destrua o cuidador.

A enfermagem revela com clareza aquilo que muitas empresas de outros setores ainda tentam esconder sob palavras mais elegantes: o adoecimento não nasce apenas dentro da pessoa. Ele também pode nascer da forma como o trabalho é estruturado. No capítulo citado, aparecem fatores que hoje dialogam diretamente com a lógica da NR-1: conflito e ambiguidade de papéis, falta de participação nas decisões, plantões, longas jornadas, rodízio de horários, número insuficiente de pessoal, recursos escassos, sobrecarga, falta de treinamento, mudanças constantes de regras, excesso de burocracia, horas extras e clima tenso.

O convívio profissional também aparece como território de desgaste: relações conflituosas com equipes médicas, falta de apoio, ausência de reconhecimento, competitividade elevada, pressão por produtividade, desconfiança e pouco companheirismo. A própria atividade assistencial acrescenta outra camada de exigência: proximidade constante com o paciente, atenção contínua, contato com sofrimento, dor e morte, além da responsabilidade implicada a manutenção da vida de outra pessoa.

Não se trata de queixa abstrata. O que o livro mostra, com prudência científica, é que o burnout não pode ser lido como defeito moral do trabalhador. Precisa ser compreendido na relação entre pessoa, tarefa, instituição, gestão, recursos, autonomia, reconhecimento e intensidade emocional do trabalho. Essa é a ponte com a discussão contemporânea da NR-1: o risco psicossocial não é um enfeite normativo; é uma categoria concreta de análise do trabalho.

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No estudo apresentado no capítulo, a amostra envolveu 228 profissionais, sendo 36 enfermeiros e 192 auxiliares de enfermagem. O grupo era composto majoritariamente por mulheres e apresentava média de idade de 37,7 anos. Quanto à jornada, 44,4% mantinham 36 horas semanais, enquanto 42,9% cumpriam 42 horas semanais. Os profissionais tinham, em média, 12 anos de exercício profissional e 6 anos de vínculo com a instituição.

Esses números afastam a explicação preguiçosa da “falta de preparo”. Não se trata de um grupo ocasional, imaturo ou recém-chegado à realidade hospitalar. Trata-se de profissionais inseridos no cotidiano da assistência, com tempo de profissão e experiência institucional suficientes para revelar algo mais sério: há contextos em que a própria permanência no trabalho expõe o trabalhador a desgaste continuado.

O estudo trabalhou dimensões tradicionalmente associadas ao Maslach Burnout Inventory — MBI: exaustão emocional, despersonalização e realização profissional. Na amostra apresentada, constaram médias de 19,43 para exaustão emocional, 5,62 para despersonalização e 38,25 para realização profissional. Em outro recorte, considerando pontos de corte, foram observados percentuais de 27,8% dos casos acima da média em exaustão emocional, 28,2% em despersonalização e 24,2% em reduzida realização profissional.

Box editorial — Enfermagem e dimensões do burnout
Estudo com 228 profissionais: 36 enfermeiros e 192 auxiliares de enfermagem.

Exaustão emocional acima da média: 27,8%.
Despersonalização acima da média: 28,2%.
Reduzida realização profissional: 24,2%.

Fonte: Benevides-Pereira, Ana Maria T. (Org.). Burnout: Quando o Trabalho Ameaça o Bem-Estar do Trabalhador. São Paulo: Casa do Psicólogo.

O próprio capítulo é cuidadoso ao advertir que os dados não podem ser generalizados automaticamente para outros contextos. Essa cautela metodológica precisa ser preservada. O burnout não se explica por atalhos. A análise exige atenção às diferenças culturais, regionais, organizacionais e institucionais. Justamente por isso, se os resultados variam conforme o ambiente, então o ambiente importa. E, se o ambiente importa, a empresa, o hospital, o banco, a indústria, o condomínio, o escritório e qualquer organização do trabalho não podem fingir que o adoecimento é problema exclusivamente íntimo do trabalhador.

Quando os resultados variam conforme a instituição, a instituição deixa de ser cenário e passa a ser parte da pergunta.

O capítulo também registra impacto concreto sobre afastamentos e sintomas psicossomáticos. Do grupo analisado, 74,7% dos afastamentos justificados por atestado ocorreram entre auxiliares de enfermagem, representando 1.212 dias perdidos de trabalho; entre enfermeiros, 62,5% tiveram afastamentos, com 279 dias parados. Foram investigados sintomas

associados ao estresse e ao burnout, como insônia, tonturas, náuseas, gastrite, diarreia, cefaleias, dores nas costas, pressão alta, gripes frequentes e outros. Insônia, náuseas e tonturas apareceram com médias significativamente maiores nas dimensões do burnout.

Adoecimento não é apenas uma tragédia individual. Gera escala descoberta, absenteísmo, rotatividade, perda de qualidade, risco assistencial, custo previdenciário, tensão de equipe e passivo trabalhista. Quem imagina que saúde mental é assunto “subjetivo demais” para a gestão ainda não compreendeu a dimensão econômica, jurídica e institucional do problema.

Empresa parada não produz. Instituição adoecida produz passivo, falha, absenteísmo e silêncio defensivo.

A aproximação entre enfermagem e ambiente bancário pode parecer estranha à primeira vista. Não é. A lógica que adoece um técnico de enfermagem não é idêntica à que adoece uma bancária, um professor, um vigilante, um operador de telemarketing ou um gerente de empresa. Cada atividade tem sua natureza, seu ritmo e seus riscos. Mas há estruturas que se repetem: pressão por produtividade, falta de autonomia, cobrança permanente, insegurança, chefia despreparada, metas incompatíveis, conflito de papéis, falta de apoio, escassez de pessoal e responsabilização individual por falhas que pertencem ao desenho do trabalho.

A decisão recente da 1ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região, que reconheceu a síndrome de burnout como doença ocupacional e condenou o Itaú Unibanco ao pagamento de indenização por danos morais e pensão mensal vitalícia, deve ser lida como sintoma de um deslocamento maior. Segundo o TRT-2, o colegiado reconheceu nexo entre trabalho e adoecimento, destacando que o burnout pode ser caracterizado como doença ocupacional quando relacionado diretamente às atividades exercidas. (TRT 2ª Região)

O caso bancário não substitui a discussão da enfermagem; ele a expande. Mostra que o problema não está restrito a hospitais nem a profissões de cuidado direto. O ambiente corporativo também pode produzir formas próprias de mal-estar: metas, rankings, vigilância, cobranças por resultados, medo de dispensa, pressão simbólica, isolamento e métricas que enxergam performance antes de enxergar pessoa. A diferença é que, no hospital, o discurso costuma ser o da vocação; no banco, o da eficiência. Em ambos os casos, quando a organização do trabalho perde o limite, o corpo humano apresenta a fatura.

A atualização da NR-1 entra precisamente nesse ponto. Seu sentido não é transformar a empresa em consultório psicológico, nem autorizar invasões indevidas da intimidade emocional do empregado. A empresa não é clínica, não é divã e não deve substituir tratamento médico ou psicológico. Seu dever é anterior: identificar fatores de risco, corrigir causas organizacionais, registrar medidas, treinar lideranças, ajustar processos, integrar PGR e PCMSO, produzir documentação séria e demonstrar que o trabalho não está estruturado de modo a causar, agravar ou acelerar o adoecimento.

O Ministério da Saúde define a síndrome de burnout como síndrome do esgotamento profissional, com sintomas de exaustão extrema, estresse e esgotamento físicos decorrentes de situações de trabalho desgastante, especialmente em atividades que demandam competitividade ou responsabilidade constantes, como as exercidas por médicos, enfermeiros, professores, policiais e jornalistas. (Serviços e Informações do Brasil) A definição recoloca a discussão no lugar correto: não estamos diante de tristeza genérica da vida, mas de um fenômeno vinculado ao trabalho.

O erro de muitas empresas será tentar responder a isso com estética de cuidado. Sala de descompressão, massagem, ginástica laboral, palestra motivacional, meditação guiada, cartilha interna e campanha de saúde mental podem até ter utilidade quando integram uma política séria. Mas, se aparecem como substituto da revisão da jornada, do dimensionamento da equipe, da qualidade da liderança, das metas, da autonomia, da escuta institucional e da documentação preventiva, tornam-se apenas maquiagem corporativa.

O capítulo de Benevides-Pereira é útil justamente porque impede essa falsificação. Ele não romantiza a enfermagem. Não dissolve o problema em discurso emocional. Examina fatores de vulnerabilidade no próprio trabalho. Esse é o caminho. A homenagem de hoje precisa ser madura o suficiente para dizer: técnicos, auxiliares e profissionais de enfermagem merecem gratidão, mas também merecem escala possível, equipe suficiente, comando respeitoso, apoio real, reconhecimento, treinamento, descanso, proteção jurídica e ambiente minimamente saudável.

Não se honra a enfermagem apenas dizendo que ela é essencial. Honra-se a enfermagem impedindo que o essencial se torne descartável.

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A gramática corporativa do adoecimento

A linguagem empresarial costuma ser hábil em transformar sofrimento em vocabulário aceitável. Sobrecarga vira “desafio”. Pressão permanente vira “alta performance”. Medo vira “senso de dono”. Chefia violenta vira “perfil exigente de liderança”. Desligamento massivo vira “reestruturação estratégica”. Resistência a práticas adoecedoras vira “baixa aderência à cultura”. Tentativa de individualizar problema organizacional vira “falta de resiliência”. Meta sem método, sem limite e sem corresponsabilidade vira “gestão por resultado”.

Essa gramática não é inocente. Ela limpa a cena antes que o Direito chegue. Troca causa por narrativa. Retira a responsabilidade da organização e a deposita no indivíduo. Quando funciona, o trabalhador adoecido ainda se sente culpado por adoecer.

A NR-1 tende a dificultar essa limpeza narrativa. A pergunta deixa de ser apenas se o empregado estava fragilizado. Passa a ser também se a empresa conhecia os riscos, se os avaliou corretamente, se tomou medidas proporcionais, se documentou suas ações, se treinou lideranças, se investigou afastamentos, se revisou práticas e se corrigiu causas. Em outras palavras: se preveniu ou apenas encenou prevenção.

A Medrado Pereira Medicina Jus Laboral intervém precisamente nessa lacuna: não para substituir as bancas tradicionais, mas para consolidar uma engenharia técnica híbrida em tema que atravessa Direito do Trabalho, medicina ocupacional, segurança do trabalho, psicologia do trabalho, prova documental, perícia, afastamentos previdenciários, gestão de riscos, PGR, PCMSO, cultura organizacional e estratégia empresarial.

Empresas sérias muitas vezes já contam com bons advogados, bons médicos do trabalho e bons profissionais de RH. O que falta, em muitos casos, é a integração técnica entre esses mundos. A doença ocupacional psíquica não nasce dentro de uma gaveta isolada. Atravessa documentos, condutas, omissões, chefias, metas, escalas, prontuários, e-mails, perícias e depoimentos. Por isso, a resposta também precisa ser integrada.

Prevenção sem prova é intenção. Prova sem prevenção é defesa tardia. Discurso sem método é marketing. Método sem correção de causa é burocracia.

A Medicina Jus Laboral parte exatamente dessa premissa: examinar o risco antes que ele vire processo, organizar a prova antes que ela seja exigida em juízo, orientar a empresa antes da fiscalização, proteger o trabalhador antes do colapso e dar ao jurídico elementos concretos para atuar com precisão. Não se trata de vender medo. Trata-se de reconhecer que a saúde mental entrou definitivamente no centro da responsabilidade trabalhista contemporânea e que improviso, nesse campo, custa caro em dinheiro, reputação, operação e vidas.

No dia dos técnicos e auxiliares de enfermagem, a mensagem poderia ser apenas bonita. Mas é melhor que seja verdadeira. Cuidar também é sustentar a dignidade nos detalhes, como diz a homenagem. E, no mundo do trabalho, dignidade nos detalhes significa escala, pausa, equipe, escuta, treinamento, liderança, limite, prova e responsabilidade.

Freud pode nos lembrar, como alegoria, que toda civilização cobra seu preço psíquico. Benevides-Pereira nos mostra, com muito mais aderência ao tema, que certas formas de trabalho podem ameaçar concretamente o bem-estar do trabalhador. A NR-1, agora, obriga empresas a saírem da retórica e enfrentarem o desenho real do trabalho.

A pergunta final, portanto, não é apenas “quem cuida de quem cuida?”. É mais dura: quem responde quando o trabalho que deveria sustentar a vida passa a ameaçar o bem-estar de quem trabalha?